Roger Deakins reflete sobre a arte da fotografia no cinema: ‘Ainda não sei definir o que fazemos’

Em conversa sincera, o premiado diretor de fotografia de Blade Runner 2049 e 1917 defende que o instinto e a vivência pessoal valem muito mais do que manuais técnicos.

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Roger Deakins segurando câmera de cinema durante filmagens
Vencedor de dois Oscars, Roger Deakins defende que a cinematografia responde mais ao instinto do que a fórmulas técnicas. Crédito: Variety / Divulgação

Poucos nomes no cinema contemporâneo possuem uma assinatura visual tão celebrada quanto Roger Deakins. Responsável pela atmosfera inesquecível de clássicos como Onde os Fracos Não Têm Vez, Blade Runner 2049 e 1917, o veterano britânico surpreende ao admitir que sua arte desafia definições acadêmicas. Em entrevista concedida durante a View Conference em Turim, na Itália, Deakins foi categórico ao revelar que ainda não sabe resumir exatamente qual é o papel de sua profissão.

‘Alguém me perguntou esses dias o que é um diretor de fotografia. Eu continuo sem conseguir responder a isso’, explicou. Para o artista, a câmera não opera segundo regras mecânicas, mas sim através de uma reação estritamente emocional aos acontecimentos de cena: ‘As decisões que dão forma a uma imagem nascem de algo inexplicável’.

Roger Deakins no set de gravação
Roger Deakins e sua colaboradora James Ellis Deakins debatem os rumos da fotografia no cinema contemporâneo. · Imagem: Variety / Divulgação

Acompanhado por James Ellis Deakins, sua esposa e parceira criativa fundamental desde os anos 1990, o diretor de fotografia destacou que a maior bagagem de um profissional do audiovisual não vem das salas de aula, mas da própria vida. O casal comanda o podcast Team Deakins e costuma alertar novos realizadores contra a armadilha do isolamento referencial.

‘Se você não vive experiências reais, o que terá a oferecer para uma narrativa?’, ponderou Roger, expressando preocupação com obras que buscam inspiração exclusivamente em outros filmes. James complementou o raciocínio lembrando que a vivência prática amplia a sensibilidade diante de um roteiro: ‘Ter experimentado coisas variadas entrega múltiplos pontos de vista e permite enriquecer a história’.

Instinto, método e a relação no set

Essa abordagem visceral guiou a trajetória de Deakins em colaborações lendárias. Ao recordar seus trabalhos com os irmãos Coen, o diretor de fotografia apontou um planejamento milimétrico de enquadramentos. Já na parceria com Sam Mendes em Soldado Anônimo, a opção foi operar com câmera na mão, reagindo em tempo real ao movimento do elenco. O diretor de 1917, inclusive, segue em alta nos bastidores com novos projetos autorais, como a recente cinebiografia dos Beatles (comentada até por Paul McCartney).

Em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, de Andrew Dominik, uma das sequências mais marcantes, a morte de Robert Ford dentro de uma tenda sob a neve, dispensou o forte jogo de contrastes do restante da produção em favor de uma luz plana e uniforme. A escolha, segundo Deakins, nasceu da observação crua do ambiente para criar um efeito documental quase desconfortável.

A perda da intimidade atrás da câmera

Embora nunca tenha rejeitado a transição digital, Roger e James Deakins lamentam como os avanços tecnológicos alteraram a convivência nos sets. No modelo atual de produção, monitores de vídeo espalhados em tendas distantes muitas vezes quebram o diálogo direto entre operador e realizador.

‘Sinto falta daquela confiança e da intimidade de operar a câmera tendo o diretor ao lado, virando após a tomada para perguntar: como foi para você?’, confessou. A disciplina adquirida no início de carreira rodando em película, em produções de orçamento apertado, ensinou a importância da contenção e da paciência, um rigor artesanal que ecoa debates sobre a sobrevivência de um cinema focado em soluções práticas.

Apaixonado pela pesca no mar de Devon e admirador confesso da literatura marítima, Deakins traçou um paralelo poético com seu próprio ofício. Ao ser questionado sobre seu perfil na clássica metáfora de Moby Dick, ele não hesitou em escolher a obsessão do Capitão Ahab em vez do olhar contemplativo do marinheiro Ishmael: ‘Ahab busca e luta contra algo que não entende por completo. Sempre senti afinidade com essa busca’.

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