Go! Go! Loser Ranger!: Como o anime desconstrói os Power Rangers no mesmo espírito sombrio de The Boys
Adaptação do mangá de Negi Haruba inverte papéis tradicionais de heróis e vilões, revelando os bastidores sádicos e corporativos de uma organização idolatrada pelo público.
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A desconstrução satírica de heróis uniformizados não é exclusividade dos quadrinhos ocidentais. Em Go! Go! Loser Ranger!, adaptação do mangá criado por Negi Haruba, a consagrada fórmula de produções no estilo Super Sentai e Power Rangers passa por uma revisão crítica impiedosa, estabelecendo paralelos diretos com a abordagem cínica e corporativa vista em The Boys.
A trama se passa 13 anos após uma invasão alienígena na Terra. Na época, os invasores sofreram derrota diante dos Dragon Keepers, uma equipe de guerreiros com trajes coloridos e poses dramáticas. No entanto, após aniquilar os líderes extraterrestres, os heróis escravizaram os soldados rasos restantes, conhecidos como Dusters. Sem opções de fuga, essas criaturas fracas são forçadas a encenar semanalmente sua própria derrota em batalhas transmitidas ao público, servindo de mão de obra e entretenimento humilhante.

Por trás dos uniformes perfeitos, os Dragon Keepers construíram um império corporativo multibilionário. Reverenciados pela população civil, que sonha em se alistar em suas fileiras, os defensores da Terra mantêm uma rotina interna marcada por vaidade desmedida, abuso e autoritarismo. A revolta ganha tração quando Fighter D, um dos soldados rasos alienígenas, assume forma humana para se infiltrar no esquadrão e sabotar o sistema por dentro.
O Capitão Pátria em versão Sentai
A aproximação temática com The Boys torna-se evidente na construção de liderança do esquadrão. Se a série do Prime Video expõe o Capitão Pátria como um narcisista sociopata escondido sob um manto de virtude patriótica, Go! Go! Loser Ranger! apresenta Sosei Akabane, o Red Keeper, sob o mesmo prisma de falso messianismo.

Para as câmeras, Akabane sustenta a imagem do líder leal, destemido e honrado do Batalhão Vermelho. Longe dos holofotes, ele se comporta como um sádico violento. Em um dos momentos mais brutais da narrativa, o líder assassina um subordinado durante uma refeição na frente dos demais integrantes da equipe, retomando o almoço logo em seguida sem demonstrar qualquer hesitação emocional.
Essa dinâmica reforça como o poder desmedido corrompe as instituições de vigilância. Enquanto produções tradicionais como as analisadas em coberturas de animações e quadrinhos clássicos mantêm a pureza moral dos protagonistas, a narrativa criada por Negi Haruba se debruça sobre os efeitos de sistemas de controle movidos por autopromoção, nos moldes da ficção política contemporânea.
Alianças improváveis e o custo da justiça real
A resistência dentro desse ecossistema distorcido depende de exceções raras entre os humanos. É o caso de Hibiki Suzikiri, um cadete que descobre o passado trágico de sua própria família, vítima de um culto religioso que idolatrava os invasores, e decide buscar uma convivência autêntica entre espécies. Ao firmar aliança com Fighter D, Suzikiri passa a questionar a definição pública de heroísmo.
Composta por duas partes que totalizam 24 episódios, a produção animada da Yostar Pictures consolida-se como um estudo provocador para quem aprecia a ação visceral de tokusatsus e narrativas focadas na demolição de mitos populares.
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