Crítica | Clayface transforma um vilão improvável em um dos filmes mais surpreendentes da DC
Com um body horror brutal, atuações excelentes e uma Gotham que parece saída diretamente dos quadrinhos, Cara de Barro mostra o potencial criativo do novo DCU, mesmo sem a presença do Batman.
7 min de leitura
Crítica | Clayface transforma um vilão improvável em uma das maiores surpresas da DC
Ninguém pediu um filme do Cara de Barro. Essa talvez seja a maior verdade sobre Clayface. O longa chegou aos cinemas como uma das apostas mais improváveis do novo universo da DC, trazendo um vilão icônico do Batman, principalmente por sua presença em Batman: A Série Animada, mas que está longe de ocupar o mesmo escalão de personagens como Coringa, Pinguim, Senhor Frio e Mulher-Gato. E é justamente aí que quero começar: o Batman tem, para mim, a melhor galeria de vilões da ficção. Pouquíssimos personagens conseguem competir com isso, talvez o Homem-Aranha seja o que mais se aproxima, mas existe uma diferença enorme na maneira como esses antagonistas foram tratados pelo cinema.
O Homem-Aranha, por exemplo, tem uma galeria extraordinária nos quadrinhos, mas suas adaptações frequentemente parecem precisar reinventar demais os vilões para fazê-los funcionar. A trilogia de Tobey Maguire conseguiu explorar muito bem essa relação, embora o terceiro filme já demonstrasse problemas com um Venom pouco desenvolvido. Depois tivemos o Lagarto, o Electro e, mais recentemente, o Abutre e o Mistério, que funcionam dentro de seus respectivos filmes, mas carregam uma dependência enorme do contexto do Universo Cinematográfico Marvel. O Abutre está diretamente ligado às consequências da invasão alienígena de Nova York, enquanto Mistério nasce de sua relação com Tony Stark. Não acho que sejam necessariamente personagens ruins, mas sinto falta daquela essência mais caricata, independente e genuinamente quadrinesca dos vilões do Homem-Aranha. E digo isso gostando muito de Homem-Aranha: Um Novo Dia, que considero o melhor filme do personagem.
Com o Batman, a situação é diferente. Desde a trilogia de Christopher Nolan, tivemos representações marcantes de Ra’s al Ghul, Coringa e Bane, além de todo o espaço que personagens ligados a Gotham conquistaram em produções como Esquadrão Suicida e Coringa. Nem tudo funcionou, obviamente, e o Coringa de Jared Leto é um exemplo disso, mas a galeria do Batman continua sendo uma das propriedades mais bem exploradas da DC. Por isso, mesmo achando estranha a decisão de produzir um filme do Cara de Barro antes de apresentar o próprio Batman desse universo, eu estava bastante curioso para descobrir o que fariam com o personagem.
E Clayface funciona. Funciona muito bem.
Um espetáculo de horror corporal
Eu entrei no cinema com expectativas altas, mas sem saber exatamente o que esperar. Gosto muito dessa nova onda de terror contemporâneo, principalmente do body horror, e a proposta do filme me interessava bastante. Só que nada me preparou para o nível da maquiagem e dos efeitos apresentados aqui. É espetacular. Fazia tempo que eu não via uma produção com uma preocupação tão grande em transmitir textura, peso e desconforto físico. É impossível não pensar em A Substância (2024), mas existe uma diferença importante: enquanto aquele filme abraça uma estética mais artificial e exagerada em sua transformação final, Clayface parece querer que você sinta cada ferimento, cada deformação e cada mudança no corpo de seu protagonista. É repulsivo, agoniante e extremamente bem executado.
Tom Rhys Harries é outro grande acerto. Seu Matt Hagen é construído como alguém por quem inicialmente conseguimos sentir empatia, mas que também apresenta uma personalidade profundamente egocêntrica. O filme entende muito bem essa contradição. Em determinados momentos, você compreende suas motivações e até deseja que ele consiga superar aquilo que está vivendo. Mas basta uma sequência brutal de violência para que essa identificação seja completamente destruída. E ainda bem. O filme não tenta transformar seu protagonista em um injustiçado que merece perdão por tudo. Ele permite que Matt seja perturbador, cruel e desconfortável. Algumas cenas são tão violentas e grotescas que chegam a provocar uma sensação genuína de repulsa. É, sem exagero, um dos filmes mais desconfortáveis que já assisti no cinema.
Também gostei bastante da maneira como a história trabalha suas reviravoltas. Clayface consegue levar o espectador para diferentes lugares sem perder completamente o controle da narrativa. O roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini não é, para mim, um dos melhores trabalhos de Flanagan, mas funciona dentro da proposta. E isso é o que realmente importa. Não estou esperando encontrar o roteiro mais impecável da minha vida em um filme do Cara de Barro. Quero uma história que entenda seu personagem, explore suas possibilidades e consiga sustentar a experiência que está oferecendo. Nesse sentido, o filme entrega. Não é uma escrita extraordinária, mas é boa, envolvente e suficientemente sólida para sustentar o horror.
Minha maior ressalva técnica fica com a direção de James Watkins. Embora o filme seja muito bem produzido, não senti uma assinatura particularmente ousada por trás das câmeras. A direção cumpre seu papel, organiza bem as sequências e sabe aproveitar os elementos visuais, mas raramente parece interessada em ir além disso. Senti falta de uma identidade cinematográfica mais forte, de escolhas mais marcantes que pudessem transformar uma produção tecnicamente excelente em algo realmente inesquecível. Talvez, com uma direção mais autoral e centralizada, Clayface tivesse alcançado um impacto ainda maior. Isso não compromete o resultado, mas impede que eu o coloque em um patamar mais alto.
Gotham nunca esteve tão viva, mas onde está o Batman?
Que Gotham maravilhosa.
O céu vermelho da cidade foi, para mim, praticamente uma participação especial do Batman. Existe algo naquela atmosfera que remete imediatamente à Gotham de Batman: A Série Animada, e isso me agradou demais. É uma cidade que parece saída dos quadrinhos, com uma identidade própria, uma criminalidade presente e uma sensação constante de decadência. Gostei especialmente de ver a máfia de Gotham já estabelecida nesse universo compartilhado de James Gunn. São detalhes que ajudam a construir um mundo muito maior sem precisar interromper a história para explicar tudo ao espectador.
Ao mesmo tempo, continuo achando estranho assistir a um filme ambientado nessa Gotham sem qualquer presença significativa do Batman. E esse talvez seja meu maior problema conceitual com a produção. Diferentemente de Coringa, que foi concebido como uma história independente, Clayface faz parte de um universo compartilhado no qual esses heróis já existem. Saber que o Batman está ativo em algum lugar enquanto tudo aquilo acontece, sem que sua presença tenha peso na narrativa, me incomoda. Não porque o filme precise dele para funcionar, mas porque estamos conhecendo um dos seus vilões antes de conhecer o próprio Cavaleiro das Trevas dessa continuidade.
E, curiosamente, essa também é uma das maiores qualidades do filme. Clayface consegue existir sem depender do Batman, da Liga da Justiça ou de qualquer outro elemento tradicional de uma produção de super-heróis. Alguém poderia entrar no cinema sem saber absolutamente nada sobre o DCU e encontrar uma história de terror corporal perfeitamente compreensível. É um filme bastante quadrinesco, mas que não precisa ficar lembrando o espectador a cada cinco minutos de que pertence a uma franquia. Essa liberdade criativa é uma das coisas mais interessantes que James Gunn vem defendendo para o universo, e fico muito feliz em ver isso acontecendo com personagens menos populares.
As atuações também merecem destaque. O elenco inteiro funciona muito bem, e existe um cuidado evidente em tornar aqueles personagens convincentes mesmo dentro de uma história tão absurda. O protagonista, principalmente, consegue equilibrar vulnerabilidade, egoísmo e monstruosidade de uma maneira impressionante. É uma interpretação que sustenta boa parte do filme e faz com que suas transformações sejam muito mais perturbadoras do que seriam se dependessem exclusivamente da maquiagem.
Um futuro promissor para os vilões da DC
No fim, Clayface é uma surpresa muito positiva. Acho melhor que Supergirl, embora ainda o coloque abaixo de Superman. Mesmo assim, considero uma das produções mais bem realizadas da DC nesta década, especialmente pelo trabalho técnico, pelas atuações e pela coragem de explorar um personagem tão improvável. Espero sinceramente que o boca a boca ajude o filme a encontrar seu público e que Matt Hagen volte a aparecer futuramente.
O mais interessante é perceber que o DCU não precisa viver apenas de Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Existe um universo inteiro de personagens de segundo e terceiro escalão esperando por boas histórias, e Clayface prova que eles também podem render filmes interessantes, violentos, criativos e com identidade própria. Ainda existem problemas, principalmente na direção e na ausência de uma conexão mais orgânica com o Batman, mas saí do cinema bastante satisfeito.
Talvez ninguém tenha pedido um filme do Cara de Barro. Mas, depois de assistir, fico muito feliz que tenham feito um.
Nota final: 8,9/10.
PopCômetro
Notas da crítica e do público
Sua avaliaçãoEscolha sua nota e escreva à vontade.Você só precisará entrar quando publicar.
Último passo
Sua avaliação está pronta.
Entre ou crie sua conta para publicar. Sua nota e o que você escreveu serão mantidos.Público
Avaliações dos leitores
Um bom filme, muito bom.
Achei top
Um bom filme de terror, assustador, um bom filme de vilão do Batman (dois seguidos agora). São esses os tipos de filmes que a Sony Pictures GOSTARIA de fazer com vilões do Homem-Aranha, mas eles simplesmente não conseguem. Foi como rever A Substancia, tão grotesco, mas tão bom, e a trama te prende.
Dados da obra
Ficha técnica
- Título original
- Clayface
- Lançamento
- 19 de outubro de 2026
- Duração
- 1h 46min
- Gêneros
- Terror, Thriller, Ficção científica
- Direção
- James Watkins
- Roteiro
- Mike Flanagan, حسین امینی
- Elenco principal
- Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Eddie Marsan, Max Minghella, David Dencik, Francesca Corney, Ruby Sear, Wil Coban
- Produção
- DC Studios, Domain Entertainment, 6th & Idaho Motion Picture Company, Troll Court Entertainment, The Safran Company
Comunidade PopCo
Comentários (0)
Entre na conversa. Seu comentário aparece na hora e pode ser respondido por outros leitores.
Entre para comentar.
Use a mesma conta das avaliações do PopCômetro.