O Menu: Como o suspense gastronômico transformou a raiva feminina em sobrevivência pura
Estrelada por Anya Taylor-Joy e Ralph Fiennes, a comédia ácida de Mark Mylod desconstrói os clichês da mocinha indefesa e segue como um dos retratos mais afiados sobre elite e pretensão.
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Poucas atrizes da sua geração construíram uma trajetória tão versátil e consistente quanto Anya Taylor-Joy. Desde sua revelação perturbadora em A Bruxa até sua passagem marcante ao lado de James McAvoy no suspense Fragmentado, a artista encontrou papéis que desafiam as expectativas tradicionais do cinema de gênero. Essa assinatura atingiu um ápice definitivo em O Menu (2022), longa dirigido por Mark Mylod que transformou a alta gastronomia em uma panela de pressão claustrofóbica e sangrenta.
Ambientada em uma ilha isolada, a trama coloca Taylor-Joy na pele de Margot Mills, uma mulher que aceita acompanhar o gastrônomo pretensioso Tyler Ledford ao exclusivo restaurante Hawthorn. Comandada pelo célebre e severo chef Julian Slowik, a cozinha funciona com disciplina quase militar. O cardápio elaborado, porém, rapidamente se revela um elaborado plano de massacre coletivo, desenhado para punir a hipocrisia, a afetação e o vazio moral dos clientes abastados que frequentam o estabelecimento.

O grande mérito da condução de Mylod, conhecido por dissecar as neuroses dos bilionários na televisão, está na forma como o suspense se desdobra em camadas. Enquanto o público acompanha rituais culinários cada vez mais desconfortáveis (pontuados pelas palmas secas e aterrorizantes do chef a cada novo prato), Margot se estabelece como a única variável imprevisível naquele ecossistema. Vestindo botas pesadas sob um vestido de gala e acendendo um cigarro sem a menor preocupação com o refinamento do seu paladar, ela personifica a recusa em participar da farsa.
Essa resistência ganha força no choque direto entre Margot e o chef Slowik. Ralph Fiennes constrói uma figura gélida, desiludida com a mercantilização da própria arte por críticos esnobes e bilionários insensíveis. No entanto, quando tenta desvendar a identidade de Margot, Slowik encontra alguém que não se deixa intimidar pela encenação luxuosa.

A virada fundamental da personagem culmina na cena em que Tyler é obrigado a confessar que sabia do destino trágico planejado para a noite e, mesmo assim, a levou apenas para cumprir a exigência de reserva para duas pessoas. A reação de Margot, que desfere um tapa impiedoso no rosto do acompanhante, foi uma decisão defendida ativamente pela própria atriz durante a preparação.
“Eu tenho uma questão com a raiva feminina. Por algum motivo, e com todo o respeito aos roteiristas, costumo receber textos onde os homens fazem coisas terríveis enquanto a mulher fica sentada em silêncio, deixando uma única lágrima escorrer. Eu penso: ‘Ah, não, nós ficamos furiosas, nós sentimos raiva’”, explicou a atriz em entrevista à BBC.
Essa recusa em assumir o papel da vítima resignada coloca Margot na linhagem das melhores figuras centrais do suspense moderno, dialogando com o frescor de obras modernas de suspense que rejeitam fórmulas fáceis. Ao transformar sua fúria em ferramenta de sobrevivência e inteligência prática, Anya Taylor-Joy elevou O Menu a um prato saboroso, provocativo e atemporal no catálogo do cinema recente.
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