Por que Guerra dos Mundos continua sendo um dos thrillers mais aterrorizantes de Steven Spielberg
Lançada em 2005, a ficção científica estrelada por Tom Cruise transformou a invasão alienígena em um pesadelo visceral sobre sobrevivência humana e o trauma pós-11 de Setembro.
3 min de leitura
Quando se pensa no cinema de Steven Spielberg, a imaginação costuma viajar diretamente para o maravilhamento lúdico de E.T. O Extraterrestre ou para as aventuras arrebatadoras de Jurassic Park. No entanto, o diretor sempre carregou um pulso firme para o horror e a tensão psicológica. Entre todos os seus projetos de grande orçamento do século 21, nenhum expressa esse lado sombrio de forma tão crua quanto Guerra dos Mundos, lançado em 2005.
Inspirado no clássico romance de H.G. Wells, o longa estrelado por Tom Cruise faturou mais de US$ 600 milhões nas bilheterias mundiais. Apesar do sucesso financeiro e do reconhecimento da crítica, a recepção do público acabou dividida por conta de um desfecho apressado e anticlimático, o que deixou o filme muitas vezes em segundo plano nas discussões sobre o auge da filmografia de Spielberg.
A invasão vista pelo chão
A grande virtude narrativa de Guerra dos Mundos está na sua recusa em adotar a cartilha habitual dos filmes de invasão espacial, como Independence Day. Em vez de cortar para salas de crise em Washington, reuniões da ONU ou cientistas traçando estratégias militares mirabolantes, Spielberg tranca o espectador na perspectiva restrita de Ray Ferrier (Tom Cruise), um estivador comum de Nova Jersey que tenta desesperadamente manter seus filhos vivos.

Ao colocar a câmera no nível dos olhos dos civis, o cineasta transforma a chegada das máquinas tripé em um exercício ininterrupto de fuga e pânico. Da memorável sequência em que civis são desintegrados e transformados em cinzas na rua até o ataque ao ferryboat, o longa abraça convenções do cinema de sobrevivência e suspense sem concessões. Ray inclusive chega ao ponto de cometer um ato extremo para silenciar um homem instável e proteger sua filha Rachel, vivida com intensidade por Dakota Fanning.
O espelho das feridas do 11 de Setembro
Revisto hoje, Guerra dos Mundos se destaca ainda mais como um reflexo direto do clima de paranoia e luto que dominou os Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro de 2001. A poeira que cobre as roupas dos sobreviventes, as pontes destruídas e os murais improvisados com fotografias de pessoas desaparecidas compõem uma iconografia dolorosamente familiar para a época.
Essa atmosfera opressiva atinge o ápice na sequência em que uma multidão desesperada cerca e destrói o carro da família de Ray. Não são os alienígenas que causam aquele horror em específico, mas sim a rápida desintegração do tecido social sob ameaça extrema. Enquanto o cinema atual frequentemente busca resgatar clássicos do passado, como a recente movimentação em torno de Dias de Trovão 2 com Tom Cruise ou as redescobertas de produções grandiosas como Waterworld, a ficção científica de 2005 merece ser redescoberta justamente pela sua recusa em oferecer alívio fácil.
Mesmo que seus últimos dez minutos entreguem uma resolução conveniente herdada da obra original, o impacto dos dois primeiros atos consolida Guerra dos Mundos como uma das experiências mais perturbadoras e tecnicamente impecáveis já orquestradas por Spielberg.
Comunidade PopCo
Comentários (0)
Entre na conversa. Seu comentário aparece na hora e pode ser respondido por outros leitores.
Entre para comentar.
Use a mesma conta das avaliações do PopCômetro.