A ideia parecia simples: pegar o pacote de grandes filmes que chegaria à programação da Globo e transformar sua divulgação em algo mais chamativo. A emissora produziu uma campanha usando inteligência artificial para colocar seus próprios apresentadores e personagens dentro de situações inspiradas em franquias de Hollywood. Marcos Mion aparecia se transformando em Tom Cruise, Luciano Huck virava o Hulk e até produções como Guardiões da Galáxia, Caça-Fantasmas, Mulher-Maravilha e Doutor Estranho entravam na brincadeira. O problema começou quando a peça aparentemente ultrapassou o terreno da homenagem e entrou em uma área bem mais complicada: autorização.

Segundo a coluna Canal D, do jornal O Dia, a Globo recebeu uma notificação extrajudicial de um dos estúdios envolvidos porque as imagens teriam sido recriadas e alteradas sem aprovação prévia. A identidade da empresa que fez a notificação não foi divulgada. Isso também significa que é importante corrigir uma simplificação que começou a circular nas redes: não há informação de que “Disney notificou a Globo”. O que existe até agora é a confirmação de que um estúdio não identificado questionou formalmente a campanha.

O problema não é simplesmente “ter usado IA”

Esse detalhe faz diferença. Ferramentas de inteligência artificial por si só não transformam automaticamente uma publicidade em algo irregular. O ponto aqui está no tipo de material alterado: rostos de artistas, personagens protegidos, imagens de filmes e propriedades intelectuais pertencentes a empresas diferentes. Em publicidade, esse tipo de manipulação normalmente envolve acordos muito mais específicos do que simplesmente possuir os direitos de exibição de determinada produção.

O caso também aparece em um momento particularmente sensível para Hollywood. O uso da imagem de atores por inteligência artificial foi um dos assuntos mais discutidos nas recentes negociações da indústria, justamente porque uma ferramenta hoje consegue produzir novas situações com rostos e personagens que nunca estiveram diante de uma câmera para aquela cena específica.

A Globo retirou a campanha de suas redes após a repercussão e, até a divulgação inicial da informação, não havia se manifestado publicamente sobre a notificação. Não significa que exista um grande processo judicial em andamento, muito menos uma condenação contra a empresa. Mas é um daqueles casos que mostram perfeitamente como a inteligência artificial está avançando mais rápido do que as regras práticas de quem pode recriar o quê.

E talvez essa seja a parte mais curiosa: a campanha deveria servir para vender filmes. No fim, acabou criando uma discussão muito maior sobre quem realmente possui o direito de reinventá-los.